Embora há poucos anos perguntar se um cão ou gato poderia ser vegano parecesse uma loucura, hoje em dia esse é um tema cada vez mais comum. Aliás, há cada vez mais rações vegetarianas no mercado para cães — e até mesmo para gatos.
A importância da classificação dos animais
Todos nós aprendemos sobre a classificação dos animais nos primeiros anos da escola.
Dependendo de terem ou não esqueleto, eles podem ser vertebrados ou invertebrados; de acordo com a forma como nascem, podem ser mamíferos, ovíparos ou ovovivíparos; e conforme o habitat, podem ser terrestres ou aquáticos. Finalmente, com base na alimentação, são classificados como carnívoros, herbívoros ou onívoros.
Nesse sentido, os herbívoros comem plantas, os carnívoros comem carne e os onívoros comem um pouco de tudo. Como exemplo de herbívoro, costuma-se citar a vaca; de carnívoro, o lobo; e de onívoro, o porco ou o urso. Cada um, obviamente, pertence à categoria que lhe corresponde, porque sua anatomia e fisiologia estão adaptadas para esse tipo de alimento — e não podem simplesmente “trocar de categoria” conforme a vontade de quem os alimenta.
Para responder essa pergunta, cão ou gato pode ser vegano? Podemos refletir sobre o seguinte: ninguém em sã consciência ofereceria um bife para uma vaca. Ela não gostaria e nem conseguiria digerir. Seu sistema digestivo é exclusivamente projetado para digerir fibras vegetais — tanto que possui quatro estômagos repletos de micro-organismos capazes de quebrar a celulose. Ela nem sequer possui dentes na parte superior da mandíbula.
Já o lobo, por outro lado, tem uma dentição composta por dentes fortes e presas afiadas, projetados para cortar e rasgar carne.
Riscos e desafios de uma dieta vegana para pets
A verdade é que cada vez mais tutores decidem alimentar seus pets com uma dieta vegana ou vegetariana.
É verdade que o processo de domesticação do cão ao longo dos anos provocou mudanças em seu metabolismo, permitindo que ele digerisse outros alimentos além da carne, o que faz com que possa ser considerado um onívoro. Ou talvez o termo mais adequado seja onívoro oportunista – carnívoro facultativo, pois, embora a base da sua dieta deva ser de origem animal, o cão pode, em determinadas circunstâncias (como a convivência com humanos), digerir e aproveitar outros alimentos além da carne. Eles já faziam isso antes mesmo da domesticação, aproveitando restos de comida de assentamentos humanos primitivos.
Mas jamais devemos esquecer sua natureza carnívora, razão pela qual o componente principal da sua alimentação (seja ração ou comida natural) deve ser sempre carne ou peixe. Sua anatomia e fisiologia são muito mais eficientes para digerir e absorver nutrientes de origem animal. Ainda mais no caso dos gatos, que são carnívoros estritos, sem discussão possível.
O respeito pela natureza dos nossos pets
Tenho um enorme respeito por pessoas veganas ou vegetarianas, pois adotam esse estilo de vida a partir de um profundo amor pelos animais. No entanto, o que é lícito e até admirável para nós não precisa necessariamente ser para nossos pets. Sem dúvida, é o amor pelos animais que leva uma pessoa a deixar de se alimentar de seres vivos, mas é o amor pelo nosso pet que deve nos levar a respeitar sua natureza e suas necessidades, pois, em nenhum caso, ele está tomando essa decisão — somos nós quem estaríamos impondo nossas convicções a ele.
Respeito. Assim como se respeita a vida dos animais que se escolhe não comer, acredito que devemos o mesmo respeito ao nosso pet e à sua natureza. O termo “ser vegano/vegetariano” possui duas possibilidades: ou é algo natural ou é uma escolha consciente. Nossos animais de estimação não se enquadram em nenhuma dessas duas. Se não é ético comer animais, também não deveria ser ético privar nosso pet de sua natureza e do que ele realmente precisa.

É possível alimentar um cão ou gato com uma dieta vegana?
O que dizer de animais alimentados com esse tipo de dieta que estão saudáveis? É possível. Você pode tornar seu cão ou gato vegano de maneira “correta”, com muita informação, um veterinário especializado no tema e uma quantidade enorme de suplementos. Se complementar essa dieta carente de aminoácidos essenciais, vitaminas e minerais necessários com tudo o que falta, é possível que seu animal esteja “bem”.
Para ter um cão ou gato vegano devemos alimentá-lo à base de suplementos e, certamente, não será nem fácil nem barato, com muitas possibilidades de cometer erros (por carência ou excesso) e originar um desequilíbrio que pode dar lugar a diversas patologias, em muitos casos irreversíveis. Os controles devem ser muito mais rigorosos e frequentes para saber se tudo está indo corretamente.
Problemas que pode ter seu cão ou gato vegano
Com um cão ou gato vegano, diante do surgimento de qualquer problema médico, a dieta deveria ser readaptada para atender à patologia que possa surgir, sendo necessário, não apenas uma dieta “animal”, mas, em muitos casos, buscar um alimento específico para, além de nutrir, tratar a patologia que possa ter aparecido, sendo as mais frequentes:
- A obesidade, por um excesso de carboidratos.
- Problemas cardíacos: em gatos é especialmente perigoso o déficit de taurina, já que, ao contrário dos cães, não conseguem sintetizá-la de maneira natural, e ela está contida unicamente em alimentos de origem animal. Sua deficiência dá lugar, entre outros, a problemas oculares e cardíacos, com o aparecimento de cardiomiopatia dilatada, caso em que seria necessário readaptar a alimentação, oferecendo uma dieta que trate o problema, como a Cardiac, que além de suplementar com taurina e L-carnitina, forneça ácidos graxos, corrija os níveis de potássio, magnésio, sódio e até fósforo, e inclua agentes antioxidantes e anti-inflamatórios, além de probióticos.
- Formação de cristais, sobretudo de estruvita devido à alcalinização da urina por excesso de magnésio. Estes podem chegar a produzir uma obstrução, sendo fundamental, em animais alimentados com este tipo de dieta, detectá-lo o quanto antes, para o que se recomenda medir o pH urinário regularmente. Diante de qualquer problema, seria necessário buscar um alimento que ajude em sua diluição ou evite sua formação.
Se bem que cada decisão é respeitável e certamente envolve um processo prévio de estudo e avaliação de possibilidades, riscos e benefícios, insisto que, como responsáveis únicos pela saúde dos nossos pets, o primeiro deveria ser sempre fazer o melhor para eles, e certamente, para além de convicções pessoais ou crenças populares, consultar sempre nosso veterinário sobre qualquer mudança drástica em sua alimentação, e estar dispostos a realizar os controles de rotina que este nos recomende.
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